PÁSCOA DE UM ALCOÓLATRA

Na páscoa (passagem) desta para a outra vida, agora, no fim dela, cheio de cirrose, diabetes, hipertensão, como alcoólatra que sou, me sinto preocupado, intrigado e num momento, me pergunto, embaraçado - Se faço ou não meu testamento! Não tendo, como não tenho, e nunca tive ninguém, pra quem é que eu vou deixar, tudo o que eu não tenho: os meus bens que, se sóbrio devia ter, e bêbado eu não tenho? Pra quem é que vou deixar, se fizer um testamento, minhas calças rasgadas e remendadas, o meu céu, minhas estrelas, que não me canso de vê-las quando ao relento, deitado nas sarjetas da vida, deixo o olhar perdido, distante, no firmamento? Se eu fizer um testamento, pra quem é que vou deixar minha camisa rasgada, as águas dos rios e dos lagos, águas correntes, paradas, onde às vezes tomei banho? Pra quem é que vou deixar, se fizer um testamento, meus Vaga-lumes que em rebanhos cercam meu corpo durante a noite, quando o verão é chegado? Se eu fizer um testamento pra quem vou deixar, dependente assim como sou, todo o ouro que me dá o disco solar que vejo nascer em uma manhã de arrebol, quando acordo na alvorada? O sol que seca meu corpo que o orvalho da madrugada com sua carícia molhou-me? Pra quem é que vou deixar, se fizer um testamento, os meus bandos de pardais, que ao entardecer, nas árvores das alamedas, brincando de esconde-esconde procuram se divertir? Pra quem é que eu vou deixar estas folhas de jornais velhos que uso para me cobrir? Se eu fizer um testamento Pra quem é que eu vou deixar meu chapéu todo amassado, onde escuto o tilintar das moedinhas que me dão, os que têm a alma boa, os que têm bom coração? E antes que a vida me largue, pra quem é que eu vou deixar o grande estoque que tenho das palavras "Deus lhe pague?" Pra quem é que eu vou deixar, se fizer um testamento, todas as folhas de outono que trazidas pelo vento vêm meus pés atapetar? Se eu fizer um testamento, pra quem é que vou deixar minhas sandálias furadas, que pisaram mil caminhos, cheias do pó das estradas, Estradas por onde andei em andanças vagabundas? Pra quem é que eu vou deixar minhas saudades profundas dos sonhos que não sonhei? Pra quem eu vou deixar, se fizer um testamento, os bancos dos meus jardins, onde durmo e onde acordo entre rosas e jasmins? Pra quem é que vou deixar, todos os raios de luar que beijam minhas mãos quando num canto de rua eu as ergo em oração? Se eu fizer um testamento, pra quem é que vou deixar meu cajado, meu farnel, e a marca deste beijo que uma criança deixou em meu rosto, perguntando se eu era Papai Noel? Pra quem é que eu vou deixar, se fizer um testamento, este pedaço de trapo que no lixo eu encontrei, e que transformei em lenço para enxugar minhas lágrimas, quando fingi que chorei? Se eu fizer um testamento... Testamento não farei! Sem nenhum papel passado, que papéis eu não ligo, agora estou resolvido: O que tenho deixarei, na situação em que estou, pra qualquer outro alcoólatra, rogando a Deus que o faça, depois que eu tiver morrido, ser tão feliz quanto eu sou.

Associação Comunidade Vida Nova
Há 30 anos nasceu Comunidade Vida Nova com o objetivo de salvar vidas. Nestes longos anos, já passaram por esta casa que é chamada “O Santuário da Sobriedade” centenas de Padres diocesanos, religiosos, religiosas, irmãos consagrados e leigos indicados por
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